quarta-feira, 19 de agosto de 2009

PT: DO SOCIALISMO DE MASSA À SURRA EM MULHER


Não tenho, já ficou claro aqui, nenhuma simpatia pelo pensamento político da senadora Marina Silva (por enquanto PT-AC). E não é hora de começar. Nas muitas vezes em que discordei dela, acho que as razões ficaram claras. Não será agora, porque parece prestes a romper com o PT, que vou tentar pegar no seu braço ou compartilhar seu xale e seu charme telúricos. Até porque ainda não sei a forma desse rompimento e não tenho muito claros os motivos. Como não sou político, não preciso, felizmente, fazer alianças táticas ou estratégicas. Minha política é dizer só o que penso. Sou, diriam alguns, “primitivo” como é a senadora em questões como aborto e pesquisa com células-tronco embrionárias — ambos somos contra. Lastimo que ela tenha sido, no entanto, uma das pessoas que ajudaram a satanizar o agronegócio no país, contribuindo para criar uma oposição nefasta entre produção e preservação do meio ambiente.

Se não chamo Marina de “companheira”, o PT e, em especial, os petralhas demonstram que não terão nenhum receio em tratá-la como inimiga — pior do que isso: como traidora. Ontem, assistimos a uma tentativa de linchamento de outra mulher, Lina Vieira, até outro dia próxima do PT e titular de um dos cargos mais importantes do governo. O PT resolveu conjurar alguns fantasmas da esquerda para tentar enquadrar essas mulheres que falam demais. Se preciso, o partido aplicará uma forma simbólica de justiçamento. Vamos ver.

Tarso Genro, sempre ele, o meu predileto, resolveu comentar ontem a possível saída de Marina do PT. E o fez assim:

“A Marina é suficientemente experiente para saber que 90% dos apoios que estão dando a ela são apoios contingentes, dentro do processo eleitoral. Grande parte dos conservadores, neoliberais, oposicionistas, antipetistas, anti-Lula, apoiariam até o Abimael Guzmán, do Sendero Luminoso, contra o PT e o Lula”.

Lembram de Abimael Guzmán? É aquele líder terrorista que foi preso pelo governo Fujimori no Peru e apresentado, em 1992, numa jaula. O Sendero matou 70 mil pessoas para tentar levar adiante a sua guerrilha maoísta e acabou, a exemplo das Farc, de braços dados com o narcotráfico. Guzmán, ou Presidente Gonzalo, ainda está vivo. Só para vocês terem um idéia, o bruto se considerava a “Quarta Espada” do socialismo, depois de Marx, Lênin e Mao… Sei: vocês imaginavam que a quarta espada fosse Marco Aurélio Top Top Garcia.

A fala de Tarso é espantosa de várias maneiras. A mais óbvia é aquele que, de algum modo, põe Guzmán como o ponto extremo de uma linha que inclui Marina, o que não é nada lisonjeiro com a ainda petista. Vocês já viram Henrique Meirelles, o verdadeiro homem forte do governo — depois de Lula — a atacar “conservadores e neoliberais”? Seria ele uma das espadas do socialismo? Acho essa conversa de neoliberalismo uma cretinice, mas, se existir, com as características que lhe atribui o petismo, ele apóia, obviamente, o governo Lula. Como o presidente já disse muito bem — e, nesse caso, falava a verdade —, “nunca os bancos ganharam tanto dinheiro como no meu governo”.

Desconstruir a fala de Tarso não deixa de ser uma operação delicada porque o texto corre o risco, ele também, de virar uma salada russa, já que vários ingredientes da sandice política se misturam. É curioso que o “Lírico de Cesare Battisti” use um terrorista de esquerda como exemplo negativo, como o extremo a que os “conseradores” poderiam aderir para fazer a política anti-Lula. Pergunto: a quais extremos aderiu o governo Lula para fazer, no ambiente interno, a sua política anti-PSDB e anti-DEM e, no ambiente externo, a sua política antiamericana?

Eu respondo: no país, ligou-se àqueles patriotas que vocês viram ontem em ação no Senado. Paulo Maluf, ele próprio — que muita gente hoje acusaria de amadorismo —, pertence à base de apoio de Lula. Na política externa, não houve uma só ditadura e um só ditador que não tenha sido cortejado. O Brasil tem sido o mais persistente aliado de Hugo Chávez. Vemos uma tirania nascer na Venezuela, com o apoio irrestrito de Lula. Em edição recente, a Economist acordou para os desastres de Celso Amorim e os anunciou ao mundo que interessa. Não pode falar de Abimael Guzmán o líder de um partido que dividia, até outro dia, o mesmo teto com as Farc no Fórum de São Paulo, entidade fundada por Lula. Oficialmente, os narcoterroristas não pertencem mais ao grupo. Oficialmente. Em matéria de falta de limites, Tarso e o PT têm lições a dar.

Mas o ministro da Justiça achou que era pouco e pensou, naquela sua língua enviesada:

“A Marina vai pensar nesse passo que vai dar. Tomara que seja o passo firme de ficar conosco. Se não ocorrer, vai ter que desenvolver estratégia que vai fazer parte desse contencioso.”

As palavras têm sentido, e isso é uma espécie de ameaça. Quando diz que Marina terá de desenvolver uma “estratégia que vai fazer parte desse contencioso”, está falando, obviamente, do próprio PT, que, então, terá de fazer o mesmo. Ou seja: Marina tem de se cuidar.

Na mesma linha de Tarso, Valter Pomar, membro da direção do partido, ligado à extrema esquerda, já escreveu que “a direita joga verde”. Num dado momento, afirma:

“Acontece que estes dois partidos [PT e PSDB] organizam a disputa política brasileira exatamente porque representam dois projetos nacionais opostos e contrapostos: o neoliberal e o democrático-popular. Não é a disputa entre PT e PSDB que cria esta contraposição; é esta contraposição na vida real (algo que nossos velhos chamavam de luta de classes) que se traduz na disputa política entre os dois partidos.”

Bem, os “velhos” de Pomar é que chamavam assim… E ponham velho nisso. De todo modo, folgo em saber que Pomar pretende levar adiante a sua luta de classes com a ajuda de Renan Calheiros, Fernando Collor, José Sarney, Almeida Lima e Wellington Salgado (com aqueles seus cabelos de Saint-Just…). Em alguma nota de rodapé de um livreco de esquerda, ele encontrará alguma teoria que justifique essa aliança. Dirá que esses notáveis são necessários para o PT levar adiante o seu projeto e que o importante é “o partido hegemonizar o processo”… Esquerdistas sempre racionalizam as maiores barbaridades. Não espanta que seus processos revolucionários tenham sido compulsivamente homicidas. Era “necessário”, entendem?

Se Marina realmente deixar o partido, vão tentar “justiçá-la”; vão tentar fazê-la passar pelo pelotão de fuzilamento. O PT pode ter perdido o que alguns consideram qualidades da esquerda, as tais “utopias”, mas não perdeu nenhum dos defeitos. Só rompem com o partido os loucos e/ou idiotas e aqueles movidos a má-fé. Quando Heloisa Helena e mais alguns deixaram a legenda, não foi difícil fazer uma caricatura da agora ex-senadora. Ela se encaixava bem no perfil da “louca”. Marina, de gestos mais contidos, venerada em certos círculos dos bem-pensantes e politicamente corretos, tem um quê de etéreo, porém profundo. Não se presta à deformação que a pintaria como doida. Buscam desesperadamente alguma coisa que possa ser caracterizada e caricaturada como má-fé. Os petistas nem acreditam que ela tenha muitos votos caso se candidate; eles temem é que ela contribua para Dilma não ganhá-los. Desde logo, dividiria com a ministra a condição real, mas tratada como rótulo politicamente correto, de “a mulher”.

Lina experimentou, nesta terça, o que significa estar do lado de lá da máquina de sujar reputações. O senador Aloizio Mercadante (PT-SP), ele próprio um tanto atrapalhado no aparelho partidário, avançou no pescoço da ex-secretária. Também ela era tratada ali como a vira-casaca, a traidora — além de incompetente, sem-memória e prevaricadora.

Os petistas começaram com o objetivo de criar, como é mesmo?, um “partido socialista e de massas” e agora batem em mulher. Simbolicamente, claro.


Reinaldo Azevedo

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