sábado, 16 de janeiro de 2010

ADEUS, FILHA
Lionel Michaud chora em frente ao necrotério de Porto Príncipe, onde caminhões despejaram
centenas de corpos. Entre os mortos está sua filhinha de 10 meses: ela e a mãe morreram
soterradas em casa


Com a força de trinta bombas atômicas, o grande terremoto que
sacudiu o Haiti destroçou a capital, Porto Príncipe, causou um número
ainda "inimaginável" de mortos, vitimou brasileiros e deixou o país,
já paupérrimo, mais arrasado do que nunca

Quando o mundo acabou no Haiti, às 4 e 53 da tarde de terça-feira, o mais terrível foi que, por algum tempo, os mortos viveram. Com a força infernal de trinta bombas atômicas, o terremoto aconteceu no pior lugar possível. Seu coração de terrível poder, o epicentro, praticamente coincidiu com as ruas e encostas esquálidas de Porto Príncipe, a capital. Pouca coisa resistiu. Os casebres, os prediozinhos precários, os escassos edifícios mais imponentes. O topo da catedral, com suas duas torres, desapareceu. O arcebispo morreu. O Congresso ruiu, com o presidente do Senado lá dentro. Hospitais, escolas, hotéis. Uma universidade inteira tragou 1 000 viventes. No palácio presidencial, em pomposo estilo francês, foi como se uma foice gigante tivesse ceifado o prédio, na horizontal, e ele se reacomodasse, alguns metros mais abaixo. "Estou andando sobre corpos", disse Elisabeth Préval, a mulher do presidente, depois de escapar do choque mortífero que tudo engolfou. Zilda Arns, uma campeã da humanidade na luta para salvar crianças da desnutrição, não conseguiu escapar, da mesma forma que quase duas dezenas de militares brasileiros da força da ONU no Haiti. O prédio de cinco andares ocupado pelos funcionários civis da ONU também veio abaixo, com mais de 200 pessoas dentro, entre as quais o segundo no comando, o carioca Luiz Carlos da Costa.

Quantos morreram? Talvez 50 000. Ou 100 000. Quem se arriscaria a calcular? "Inimaginável", definiu René Preval, o presidente sem teto – perdeu o palácio e a residência particular –, abrindo os braços, no meio da rua, perplexo. Os vivos vagavam como almas penadas, sem ter casa para onde voltar ou, tendo, sem coragem para entrar nela. Os que iam morrer pediam um socorro que não vinha. Na primeira noite, os gritos eram muitos, constantes, lancinantes. Aos poucos, foram diminuindo. "Hoje, quinta-feira, não escuto mais ninguém", disse a VEJA o coordenador de uma entidade assistencial, Jean Claude Fignole. "Os escombros ficaram em silêncio. Os que continuam vivos estão muito fracos para gritar. Alguns apenas ainda estão com os celulares acesos."

FORÇA SOBRENATURAL
O palácio presidencial, construído em 1918, antes e depois da tragédia: como uma foice gigante
que desfechasse um golpe na horizontal


Ah, os celulares. Quando a terra tremeu, a luz acabou, a água sumiu e ergueu-se uma nuvem de cimento parecida com a vista em Nova York no 11 de setembro de 2001. As comunicações se evaporaram. Mas, com o mesmo padrão aleatório típico dos terremotos – aqui um prédio intacto, acolá um que parecia Hiroshima bombardeada –, alguns celulares continuaram funcionando. O grande terremoto do Haiti foi transmitido pelo Twitter, em doses de dramática concisão. "O centro virou poeira e escombros", tuitou no primeiro momento Frederic Dupoux. Depois: "Corpos por toda parte, não vi nenhuma ambulância nem nenhum serviço médico em lugar nenhum".


HOLOCAUSTO
O corpo abandonado da menina,
com as ruínas de uma igreja ao
fundo: ninguém sobrou para chorá-la

Os sobreviventes só tinham as mãos nuas para tentar ajudar os soterrados. Se conseguiam arrancá-los aos escombros, não tinham como transportá-los – as ruas estavam obstruídas por destroços e carros abandonados na hora do pânico. Se os transportassem, não tinham onde socorrê-los: os hospitais estavam em ruínas. Se obtivessem, enfim, algum socorro, faltava tudo. Feridos se alternavam com os que já haviam chegado mortos às poucas e precárias clínicas ainda abertas. Em frente ao necrotério, em total colapso, a mais dantesca das cenas: sobreviventes caminhavam na ponta dos pés, equilibrando-se sobre um tapete de mortos, tentando reconhecer parentes. Nenhum país estaria preparado para enfrentar uma catástrofe do tamanho da que devastou o Haiti – pelas primeiras avaliações da Cruz Vermelha, cerca de 300 000 pessoas precisavam de absolutamente tudo, de abrigo a água e comida. Somando-se todos os afetados pelo desaparecimento do pouquíssimo que tinham, chegava-se a um número dez vezes maior. No total, um terço da população haitiana, uma proporção de flagelados inconcebível até em tempos de guerra.

Habitualmente, o Haiti já vive em estado de emergência. A miséria é endêmica, a agricultura é de subsistência e a principal atividade econômica para as massas parece ser o microcomércio de rua. Descrever o Haiti como o país mais pobre das Américas – e o marco zero da aids também – não dá ideia nem aproximada da realidade. As peculiaridades da história haitiana descortinavam um futuro glorioso, mas redundaram em promessas terrivelmente frustradas. O Haiti foi o único país onde escravos trazidos da África conseguiram fazer uma rebelião bem-sucedida. Eles trabalhavam nas plantações de cana, que, como no Brasil colonial, produziam riqueza para poucos e sofrimento para muitos. A rebelião teve episódios terríveis, com matanças sucessivas dos blancs, os colonos franceses, e inspirou terror em outros países escravocratas. Teve também um herói convulsionado, Toussaint Louverture, que professava ideais libertários e escrevia a Napoleão Bonaparte como "o rei dos negros falando ao rei dos brancos". Ele terminou preso, exilado e morto na França, mas a independência foi alcançada pouco depois, em 1804, por Jean-Jacques Dessalines, que imediatamente se declarou imperador e iniciou uma linhagem de dirigentes desastrosos.


PRIMEIROS SOCORROS
A escavadeira recolhe corpos e socorrista espanhol consegue tirar criança das ruínas: com 70% da cidade destruída e os poucos serviços públicos em colapso completo, tudo é difícil para os sobreviventes

Fraco, com a economia desorganizada, sem herdar instituições nem criar as suas próprias, o Haiti sofreu intervenções estrangeiras sucessivas e o flagelo da dinastia Duvalier. Papa Doc e depois seu filho, Baby, foram os absurdamente perversos e corruptos ditadores que criaram um reinado de terror baseado nos tonton macoutes, seu esquadrão da morte particular, e em misteriosos poderes ocultos, na tradição do vodu. Governantes ruins, ladrões e insufladores da violência das massas destruíram os sopros de esperança na era pós-Duvalier e empurraram mais haitianos para a única saída, a fuga para o exterior, onde conseguem fazer o básico que seu país lhes nega: estudar e trabalhar, seja nos museus de Nova York, onde parecem formar uma sorridente corporação de guardas, seja nos hospitais do Canadá – há mais médicos haitianos em Montreal do que em Porto Príncipe. A falência geral acabou por produzir a intervenção da Organização das Nações Unidas, último recurso para salvar os haitianos de si mesmos. A missão, honrosa em sua essência, com participação majoritária do Brasil, traduzida no número de baixas sofridas pelo Exército nacional, conseguiu certa estabilização. No Haiti, isso significava um estado ruim, mas menos desastroso do que seria se nada tivesse sido feito. Até que a maior de todas as catástrofes, produzida nas entranhas da terra, aconteceu. Das superstições criadas à sombra do vodu, a mais conhecida é sobre os vivos que trazem os mortos de volta para escravizá-los. São os zumbis. No dia em que o fim do mundo despencou sobre o Haiti, as fronteiras entre vida e morte, como na lenda, se afinaram.

Como tudo o mais, o cemitério principal de Porto Príncipe entrou em colapso. Os corpos insepultos se acumulavam, famílias chegavam a pé carregando seus mortos e não tinham onde deixá-los. Estranhamente, o portão estava intacto. Sobre ele, a inscrição em francês:"Souvennons-nous que tout est poussière". Tudo era mesmo poeira no Haiti.

PORTO HIROSHIMA
Cena de bomba atômica em Porto Príncipe: haitianos não tinham casa para voltar
e vagavam pelas ruas, com medo e sem assistência. A lista de carências
é alarmante: faltam abrigo, água, luz, comida e remédios para todos


O TAPETE DE MORTOS
A cena dantesca se repetiu por todo canto: corpos amontoados como lixo, rodeados por moscas. Parentes de desaparecidos equilibravam-se sobre as vítimas em busca de rostos conhecidos

Diário do desastre

Este é o dramático relato de Diego Escosteguy, o repórter de VEJA
que narra a destruição e o desespero enfrentados pelos haitianos


PARA CONTAR A HISTÓRIA
Tragédia nas ruas e escombros da igreja Sacré Coeur (acima), onde estava Zilda Arns,
e o seminarista Bourgouin Meltone: "Ela era uma pessoa iluminada"

"Escrevo este relato no chão de Porto Príncipe, a cidade que acabou e agora recende a morte e sofrimento. À minha frente, está o outrora agradável Hotel Villa Creóle – na verdade, metade dele.

A parte que resta está servindo como ambulatório para tratar feridos do terremoto. O cheiro pútrido dos corpos que se estendem pelas ruas e jazem nos escombros obriga-me a usar uma máscara cirúrgica. Não adianta muito: a náusea é inevitável. A cada cinco ou dez minutos, ouço o barulho dos helicópteros que chegam e se vão – espera-se, aqui embaixo, que carreguem comida e água, tudo de que os haitianos mais precisam neste momento. Esse é um doce som. Há um bem pior, que ressoa desde que cheguei aqui, no começo da manhã: são os gritos agudos de dor que partem do ambulatório e da calçada, onde feridos padecem, sem anestésicos nem esperança, ao lado de voluntários abatidos pela impossibilidade de fazer mais e pela certeza de que nada além da morte aguarda esses infelizes abandonados à própria sorte.

‘Aaaaahhh’, grita uma voz de criança, silenciando todos que estão perto do ambulatório.

Eu e o fotógrafo Gilberto Tadday pousamos de helicóptero num aeroporto inteiramente ocupado pela solidariedade do mundo: havia aviões americanos, franceses, espanhóis, mexicanos. Do lado de fora, o caos. Haitianos gritavam por ajuda, por notícias dos familiares. Em alguns, já se notava raiva – e não mais desespero. As ruelas cinza de poeira e terra são bordejadas por filas indianas de homens, mulheres e crianças em busca de comida, água, remédio. Pela janela do carro, alguns nos pediam ajuda.

Dos prédios desabados, fragmentos de concreto caíam constantamente nas calçadas, tal qual flocos acinzentados de neve, pousando sobre o monturo de tijolos, dejetos e restos humanos nas calçadas. Não é difícil compreender por que já começam a se perceber tumultos nas ruas. No que costumava ser um posto, vimos uma briga por galões de gasolina. A frustração está dando lugar à fúria. Chega-se rápido à violência. ‘Ninguém vem nos ajudar. Precisamos de tudo para sobreviver’, diz, revoltado, Adolph Fanfan, de 25 anos. Ele perdeu um irmão, um tio e uma prima.

Chegamos com dificuldade à perigosa região onde a missionária Zilda Arns morreu. Lá, na tradicional Igreja Sacré Coeur, que desabou quando ela conversava com fiéis, sobraram tijolos, corpos – e uma solitária imagem de Jesus Cristo em frente ao altar. Um esqueleto de telhas vermelhas e algumas colunas de tijolos mantêm em pé a igreja. Dentro, cadeiras brancas de plástico, perfeitamente alinhadas, esperando uma missa que nunca virá. Uma construção menor, atrás da igreja, também desabou. Encontrei quatro voluntários tentando levantar os grossos pedaços de concreto, sem nenhuma ferramenta – e sem sucesso. Perguntei o que procuravam. ‘Cerca de vinte pessoas’, respondeu um deles. A força terrível do cheiro de corpos decompostos paira sobre tudo.

Estava lá o seminarista Bourgouin Meltone, um articulado jovem de 28 anos. Ele conhecia Zilda Arns. ‘Eu conversava com ela aqui’, diz Meltone, olhando para a torre de tijolos. ‘Ela era uma pessoa iluminada.’ O seminarista estava em outra paróquia quando o terremoto começou. O arcebispo Joseph Serge Miot morreu ao lado dele. Conta o haitiano: ‘Corri para cá e ajudei a retirar alguns sobreviventes. Era tarde para ela’.

O que era possível fazer com as mãos, os haitianos já fizeram. ‘Sem equipamentos, não temos como fazer mais nada, mais nada’, diz Tol Polyte Wolking, um estudante de 23 anos. Ele teve sorte. Seu casebre resistiu à força dos tremores. Mas ele ainda procura vítimas na rua onde Zilda Arns morreu. Além da igreja, havia uma moradia para seminaristas e uma escola infantil. Ao nos aproximarmos da escola, Polyte retirou sua camiseta vermelha, molhada de suor, cobriu o nariz com ela e apontou para a pilha cinza de tijolos. ‘Lá’, murmurou o haitiano, falando para si mesmo, ‘eles ainda estão lá dentro’.

Pouco antes de terminar este relato, a terra tremeu mais uma vez. Um haitiano me disse: ‘O senhor tem que sair daqui. O resto do hotel pode desabar’. Levantei-me e fui embora, tentando não olhar para trás."


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Revista Veja

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