quarta-feira, 22 de julho de 2009

Culpa de todos. E de ninguém

Recorrer a explicações culturais, além de ajudar a aliviar o passado, serve como garantia antecipada do perdão futuro


Virou moda no Brasil atribuir desvios individuais de comportamento a um traço qualquer da formação histórica nacional. A desculpa preferida é que políticos desviados do bom caminho são, na verdade, vítimas de um patrimonialismo supostamente arraigado na nossa cultura política. Vítimas da falta generalizada de limites claros entre o público e o privado. É uma saída engenhosa. Se a culpa é do patrimonialismo, ela não é de ninguém. Se for de alguém, é de gente que morreu há muito tempo, e portanto não pode ser punida. Os pais da pátria, fundadores do tal patrimonialismo.

Tome-se o caso das passagens aéreas no Congresso. O deputado ou senador sabia que o dinheiro era para ser usado no exercício do mandato. O bom senso mandava que não fosse empregado para viagens com a família ao exterior, em férias. Pois passear com os familiares em Paris nada tem a ver com o mandato. Parece razoável. Então, se o sujeito pegou a grana e usou para fazer a alegria da turma de casa, isso nada tem a ver com patrimonialismo coletivo, mas com algo que está na esfera de uma decisão absolutamente individual. Fazer ou não fazer o que se sabe que não é certo.

Outro exemplo são as irregularidades do Senado. Entre elas a aberração maior, os atos oficiais a que não se deu publicidade. O que essa transgressão tem a ver com o patrimonialismo? Nada. Tem a ver com a certeza da impunidade, com a convicção de que no Brasil a Justiça tarda mais do que seria razoável, quando não falha. Mas, de novo, se o parlamentar embarga a voz para apontar o dedo ao “patrimonialismo”, fica liberado de tomar as providências e de lançar o problema nas costas dos responsáveis. Confortável, não?

O mesmo truque é aplicado com outra categoria sempre à mão na hora do aperto: a reforma política. A autoridade foi pega com a boca na botija? Lamentamos, mas é culpa do nosso péssimo sistema eleitoral. Afinal autoridades não se metem em rolos para benefício pessoal, é sempre para abastecer o caixa de campanha. Ninguém compra casa, fazenda ou carro com dinheiro do caixa 2. E, quando compra, é só para vender o bem na véspera da eleição. Como se sabe, é um hábito dos políticos queimar patrimônio para financiar a carreira. Você acredita nisso?

Recorrer a explicações culturais ou sociológicas tem outra vantagem. Além de ajudar a aliviar o passado, serve como garantia antecipada do perdão futuro. Afinal, a reforma política vai demorar para sair. Enquanto ela não acontece, sua falta fica aí à disposição como desculpa. Com o patrimonialismo, é melhor ainda. Não há sinais de que para acabar com ele vá haver proximamente uma revolução cultural no Brasil. Enquanto isso, rola o som na caixa, e a festa vai a todo vapor. Se aparecer a polícia, mande reclamar com o patrimonialismo. Ou com o voto uninominal.

E a teoria vai sofisticando-se, ao sabor do momento. A melhor dos últimos tempos veio do governo, na crise do Senado. Segundo a explicação, não adianta trocar dirigentes da Casa, porque muitos já foram trocados e os problemas continuam. “Eu bebo sim e estou vivendo. Tem gente que não bebe e está morrendo.” Uma coisa é concluir, a partir do histórico, que a degola de protagonistas não é suficiente. Mas o Planalto preferiu chegar à conclusão de que não é necessária. Como se sabe, insuficiente e desnecessária são duas palavras de significados completamente diferentes. Menos na política. Quando interessa.

Como dito

Como se disse nesta coluna que certamente aconteceria, o PT do Rio Grande do Sul ignorou o calendário imposto pela direção nacional do partido e lançou Tarso Genro ao governo do estado. A situação caminha de maneira semelhante em Minas.


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